Telas Inventadas, Pinturas da Mente Por Ricardo Resende

Festa Anticonformista Por Juliana Monachesi
novembro 27, 2017
Mostrar tudo

Telas Inventadas, Pinturas da Mente Por Ricardo Resende

Exhibition at the Oscar Cruz Gallery; Exposição na Galeria Oscar Cruz; Pintura contemporânea; painter; pintor; contemporary art; oli on canvas; óleo sobre tela; acrílico sobre tela; tinta; paint.

Texto de Ricardo Resende

Para a Exposição “TELAS INVENTADAS, PINTURAS DA MENTE” de Éder RoolT.

[…] no inicio dos anos 1960, quando, uma vez por semana,
ele ia à nossa casa nos dar aulas de pintura, “Inventa!”,
repetia ele, quando, diante de uma cartolina vazia,
perguntávamos o que fazer.*

Uma trajetória do olhar. Telas reviradas do avesso. Pinturas do avesso. Inventar a pintura.

Éder Roolt vê pintura em tudo e busca com isso este “estado inventivo” dito por Hélio Oiticica.

É um pintor e é da pintura que trata em suas telas.

Engenheiro químico de formação, não consegue separar as coisas, melhor, gosta de separar e desconstruir a matéria que compõe o mundo. O mundo que compõe a pintura.

Evidentemente que na pintura já aconteceu de tudo que se possa imaginar de temas, formas de pintar e não pintar. Artistas chegaram até a implodi-la (não foi literal), como fizeram os cubistas. Outros artistas tentaram acabar com a pintura de cavalete e de quadro, como o fez Piet Mondrian nas primeiras décadas do século XX, em que extrapolou com suas pinceladas as bordas da tela resvalando para a parede que servia de apenas de apoio ao retirar a moldura e pintar as laterais da mesma.

A história da pintura é de longa data, de séculos, se não milenar, e em toda a sua trajetória passou por grandes transformações de acordo com a sociedade e às épocas.

De pinturas planas sem profundidade com a figura de perfil achatado e sem perspectiva foram vistas no Egito Antigo. Para as que imitavam a natureza, os pintores trouxerem profundidade para tela no Renascimento e no Romantismo europeus. Dos expressionistas aos impressionistas até as mais puras pinturas como a tela pintada sem marcas de pincéis, gestos do artista ou feitas com uma única cor, como foi à maneira de pintar dos suprematistas e mais tarde dos minimalistas, podia ser preto sobre preto, branco sobre branco, vermelho sobre vermelho e até mesmo a tela sem pintar, virar uma pintura. Ou ainda, na action painting dos anos 1950, em que se misturava todas as cores com os artistas munidos de pincel ou sem o pincel. Foram feitas pinturas com vassoura, com pá, com rodo ou apenas com o gesto de jogar a tinta da lata direto na lona.

De grandes dimensões a ponto de as paisagens retratadas se transformarem em verdadeiros abismos vertiginosos onde o espectador podia mergulhar para pinturas minúsculas de se ver com lupa. Estas foram vistas principalmente na Holanda dos séculos XIV e XV. São perfeitas na sua fatura ao retratar o homem e a natureza quase fotográficos em tempos que a máquina de tirar fotos ainda não existia.

Vieram também as pinturas perfeitas e as imperfeitas, propositalmente, na execução como as do jovem artista paulista Henrique Oliveira que cobre áreas no formato de telas com chapas de madeira descartada com os matizes naturais da ação tempo sobre estas placas. Depois passou também para as coloridas artificialmente de maneira a conseguir sutis variações cromáticas.

Outras eram bem pintadas na busca de domínio da técnica. Outras  mal pintadas de propósito aconteciam casualmente e poderíamos chama-las de pinturas acidentais. Pinturas que nem são pinturas, apenas planos de material sintético industrializado que funcionam como campos de cor. Como as do artista paulista Carlos Fajardo da década de 1970. Trabalhos que nem poderíamos chamar de pintura já que são apenas superfícies de fórmica colorida.

Aconteceu e acontece de tudo na pintura de tal maneira que nos levou a crer em determinado momento que tínhamos chegado no seu esgotamento e, até mesmo, foi sugerido o seu desaparecimento.

Nada disso aconteceu. Não é isso o que vemos na arte contemporânea. A pintura continua forte e presente na produção atual. Temos artistas que se dedicam a investigar a linguagem pictórica trazendo novos questionamentos para a pintura. Em alguns casos, reinventando-a.

É o que o artista Éder Roolt busca. Sua técnica é pintar realisticamente os seus temas criando um simulacro entre a realidade que se vê na tela e aquilo que o observador de fato enxerga.

Esta sua insistência, pintar realisticamente, e digo isto positivamente, não faça muito mais sentido hoje, já que pintura perdeu esta função com o advento da fotografia. Antes a pintura tinha que ser um retrato da realidade. Hoje não mais. O artista se desobrigou dessa função. E é esta a ousadia do artista ao trabalhar com a realismo nas suas pinturas, esculturas e desenhos. Ousa desafiar em pleno século XXI o que se entende por uma pintura contemporânea ao querer com sua técnica muito estudada e que prima pela busca da perfeição, mudar a perspectiva do ponto de vista do observador usando de técnicas tradicionais. Cria um primeiro plano, um segundo e um terceiro dentro de suas pinturas para dar a noção de profundidade. Mas quando pinta o plástico bolha que simula “embalar” suas pinturas, cria um quarto plano, rompendo com a tradição da pintura de ter apenas três planos. O que se vê de fato quando pinta o quarto plano, este funciona como uma pele que acaba por anular a noção de profundidade trazida pelos primeiros planos.

Quando se vê o trabalho a tentativa é de querer saber se há ou não uma imagem na suposta frente da tela. O artista deixa vestígios nas laterais da pintura, o que induziria ainda mais a esta pintura imaginária.

Em um primeiro olhar, sem perceber do que se trata, pensamos ver apenas uma tela dependurada de costas para quem vê. Mas não é. Trata-se de fato de uma pintura. Quando falo tela e pintura é porque o artista trabalha na duas fases de uma pintura propriamente dita.

Uma em que a tela vista é só o fundo da tela vazia no que seria a sua frente. Ele pinta o fundo da pintura e as laterais como se fossem parte de uma pintura virada de frente para a parede. Mas a frente está em branco ou é o fundo de fato da tela. Não existe nada nesta face a não ser o próprio fundo. As laterais pintadas dão a ideia da existência de uma pintura que se estenderia para à frente. Simples. O trabalho fica nas adjacências do surreal.

A segunda é a própria mimetização de um fundo de uma tela ainda em branco. A superfície foi pintada, como se estivesse virada de costas na parede. Pensamos ver uma tela pintada de fundos. Nada mais do que isso. Mas não se trata de uma tela pintada virada de fundos e sim de uma pintura como se a tela fosse vista pelo fundo.

Parece ter ficado complexo o que descrevo insistentemente até aqui, mas ao ver os trabalhos do Eder Roolt fica tudo tão claro que não é nada difícil compreender o seu processo artístico quando olhamos para as outras séries de pinturas e desenhos que tem feito, torna-se mais fácil de entender do que se trata. Telas pintadas que enganam o nosso olhar desatento. Só percebemos o que está pintado quando fixamos o olhar e prestamos atenção no que estamos observando, trata-se de uma obviedade.

 Uma outra dessas “pinturas”, usa o fundo de uma tela como frente embalada por um plástico “protetor” caracterizando este que seria o fundo, na frente da tela que vai ainda apoiada sobre duas latas pintura. O plástico transforma-se em uma película que dá uma preciosidade à tela vazia. As latas por sua vez, são esculturas de madeira pintada que mimetizam latas verdadeiras.

Estes trabalhos de Éder tratam da visão em paralaxe ou seja, o que vemos não é bem o que vemos. Vemos duas coisas que não correspondem a realidade. O que vemos é uma pintura da pintura ou uma pintura dentro de uma pintura que mimetiza o fundo de uma tela ou uma lata.

Em outro caso, a frente que seria a pintura, que não existe, é o fundo da tela. O fundo é a frente e o que vemos é a pintura do fundo da tela. Parece confuso mas é simples, e é para nos confundir o que Éder Roolt faz. Pinta a madeira e a dobra da tela que compõe o fundo de uma tela e expõe como o fundo de uma pintura. Um fundo de uma tela é a pintura dependurada na parede. É o que vemos. É um truque que cria uma ilusão ótica. A ilusão de estarmos vendo uma tela virada de costas para a parede, nada mais do que isso. O estranhamento se dá ao nos depararmos com o fundo da tela pintado que mimetiza o mesmo fundo.

O interessante deste trabalho é nos levar a pensar ou pintar com a mente a pintura que não vemos e que estaria na frente do fundo da tela exposta. O que estaria virado para a parede é uma tela em branco. A pintura que supostamente estaria ali existe apenas na nossa imaginação que sempre busca completar as coisas. Sempre que nos deparamos com o vazio buscamos preenchê-lo.

Uma pintura que só existe na mente de quem observa. Cada um imagina a pintura que desejar.

Há uma busca de refinamento em sua pintura. Há estudo. Há insistência nesta busca da pintura perfeita que simula a realidade e que nos confunde. Aquilo que se vê não é bem o que se vê conforme o ângulo ou a distância que se observa o seu trabalho.

Muitos artista já o fizeram em outras épocas e outros também o fazem na atualidade. Refiro-me aqui como exemplo às obras de Iran do Espírito Santo e Hildebrando de Castro. Artistas que são referência para Éder Roolt. Embora os três artistas trabalhem o realismo ou hiper-realismo cada um à sua maneira. Os três têm pesquisas e interesses diferentes. Tanto na forma de pintar, como na escolha temática ou ainda na sua maneira de provocar o nosso olhar. No caso de Éder Roolt, suas pinturas não são exatamente o que vemos ou imaginamos ver.

Os dadaístas, os surrealistas, os cubistas, os abstracionistas e até mesmo os figurativistas, fizeram algo inovador, sem dúvida. Desde pintar como se via imitando a natureza, até o artista norte-americano Jackson Pollock que pintou com o simples gesto de jogar baldes de tinta sobre a tela estendida no chão.

Teve até os que não se propunham a pintar. Queriam pintar o nada. Mas o nada é impossível, restou então para o artista ítalo-argentino Fontana, simplesmente rasgar a tela pintada.

Roolt faz suas pinturas e esculturas de forma bastante rigorosa e obsessiva na busca da perfeição. Uma pintura que cria efeitos de realidade ao imitar, por exemplo, o amassado do papel celofane. Pinta o plástico bolha que embala uma tela de tal maneira que num primeiro olhar pensamos estar de fato diante de uma tela embalada com este material. E é de fato. É a matéria real transformada em pintura.

 O olhar torna-se hoje um exercício difícil. É apenas o olhar superficial que pouco vê e em perspectiva para a tela que só percebemos do que se trata depois de um tempo de observação.

Trata-se de pinturas que imitam o fundo da tela, as dobras do papel celofane ou plástico bolha.

Em outra série de desenhos, Eder Roolt simula a realidade ao inventar guloseimas sobre o papel. Balas, bombons e doces são pintados na técnica hiper-realista. Seduzem pela forma e cor. São vivos. Parecem de verdade tal a perfeição do desenho. São delicados e sedutores. Dá vontade de pegar mas são apenas desenhos no plano do papel.

É um jogo do artista. Os desenhos embora o plano do papel seja evidente, parecem tridimensionais. Parece existirem de verdade sobre a folha de papel. Parecem tomar volume. Se tornam volume. Tornam-se desenho. Nos outros casos anteriores, tornam-se pintura. É de pintura que estamos tratando.

 

Ricardo Resende, mestre em História da Arte pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), tem carreira centrada na área museológica. Trabalhou de 1988 a 2002, entre o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo e o Museu de Arte Moderna de São Paulo, quando desempenhou as funções de arte-educador, produtor de exposições, museógrafo, curador assistente e curador de exposições. Desde 1996, é curador  do Projeto Leonilson. De março de 2005 a março de 2007, foi diretor do Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, no Ceará. De Janeiro de 2009 a junho de 2010, foi diretor do Centro de Artes Visuais da Fundação Nacional das Artes, do Ministério da Cultura. Atualmente é o diretor geral do Centro Cultural São Paulo.

Em 2011 foi curador das mostras retrospectivas Sob o Peso dos Meus Amores, do artista Leonilson, no Itaú Cultural e Sérvulo Esmeraldo, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em São Paulo. Ainda em 2011, foi o curador geral do Arte Pará – Ano 30, em Belém do Pará. Em 2012 foi curador da mostra retrospectiva Sob o Peso dos Meus Amores, do artista Leonilson, na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre.

 * VALENTIN, Andreas, VALENTIN, Thomas. Leve como o ar – Rio/Nova York, 1974. Folha de São Paulo – Arquivo Aberto/Memoria que viram Histórias. Ilustríssima: São Paulo, 11 de Maio de 2014, pag. 9.

 

Scroll Up